Há anos levanto vários questionamentos quanto à prática do ensino, em geral, mas não me sentia suficientemente corajosa para colocá-los no papel. A ousadia, porém, é uma virtude que cultivo e, cansada de discutir em pequenos círculos, me aventurei em 2004, a ampliar a discussão, alçar vôo e aprender mais sobre o assunto. E que outra forma há para aprender, além de expor-se a opiniões diversas?
Escrevo em primeira pessoa porque essa é a minha visão da prática escolar, observada ao longo de meus vinte e tantos anos de magistério. O leitor não tem a menor obrigação de concordar ou de ver a situação sob o mesmo prisma mas, certamente, reconhecerá realidades ou dizeres, já que eles estão aí mesmo, para quem quiser vê-los ou ouvi-los.
Sabemos todos nós, profissionais do ensino, das teorias que orientam - ou pretendem orientar - nosso fazer pedagógico. Concordamos com elas, ou não. Mesclamos práticas, sofremos, ou não nos importamos. Seja qual for a postura do professor, ela faz, sim, enorme diferença para o aluno.
Quando me coloco à frente de uma classe, sou uma, diante de 19, 20, 35 pessoas, ou mais. É a minha experiência que transmito (não há como me separar dela, por mais que me esforce para tanto). São as experiências de todas elas que recebo. Aprendo, muito mais que ensino. Isso parece óbvio? Só o será para quem estiver disposto a ver...
De que adianta sabermos tanto? De que adianta conhecermos as mais modernas teorias que privilegiam as mais diversas habilidades, que respeitam idiossincrasias, que deixam claro que o professor é apenas e tão somente um orientador, um guia, e nunca o detentor único do saber, se continuamos pondo em prática as velhas metodologias com as quais nós mesmos fomos "ensinados"? Sim, eles funcionaram, afinal, nos deram condições para chegarmos aqui. BRAVO! Será?...
Quando conheço, passo a ser responsável pelo destino do conhecimento adquirido. Se vou deixá-lo quieto, se vou ignorá-lo, se vou tratá-lo como algo tão precioso que não deva ser compartilhado, apenas protegido da inveja alheia, se vou defendê-lo com unhas e dentes, se permaneço buscando indefinidamente, tudo isso traz refelxos ao meu fazer pedagógico: a sala de aula tem a cara daquilo que ACREDITO, não apenas do que SEI.
Acho lindo quando Rubem Alves compara a sala de aula a um jardim, um lugar mágico, onde é possível ver a beleza nascendo. Não conheço outro espaço onde isso seja possível, com tamanha clareza. Também não conheço outro espaço tão displicentemente cultivado, tão pouco valorizado. O jardineiro precisa acreditar que suas plantinhas têm alma. Meu jardim tem as cores que eu ACREDITO, não as que CONHEÇO.
Mas a culpa não é do professor. É do Sistema, é do governo, dos baixos salários, da decadente valorização do magistério, das salas de aula apinhadas de alunos, da realidade cada vez mais complexa desses alunos, da dificuldade de se especializar, da dificuldade de se deslocar, da dificuldade de se dedicar, do tempo curto, da chuva, do sol, do vento, da violência, dos filhos, do marido, dos pais, da falta de escolhas, do alto preço dos livros, do alto custo de vida, da AIDS, da miséria, da fome, da vida, meu Deus, da vida! Encerrado o assunto. Não há como argumentar diante de tamanha lista de impedimentos. O maior deles: a vida. Justamente o que de mais precioso há no saber: a vida. O que permanece pulsando, insistente, apesar de tudo: a vida - ausente em determinados ambientes escolares, sejam de Ensino Fundamental, Médio ou Superior.
Se acredito na vida, minha sala de aula é sempre nova, independente do apoio da Direção da escola, da falta de recursos, do fuxico ou da maledicência. A vida é barulhenta e silenciosa, é doída, difícil e plena de significados. A vida é dinâmica e contraditória, exigente, forte e bonita. "Bonita", diria Gonzaguinha.
Se tua sala de aula é bonita, sim, caro colega, a culpa é da vida...
Escrito em 24.08.2004
2 comentários:
Já li quase todos os teus blogs. Quero deixar meus parabéns pela tua capacidade de criação, pela beleza dos teus textos. Li-os quase todos com sofreguidão. Um grande abraço, poetiza, professora, contista, cronista. Parabéns.
Gosto muito, muito, muito deste texto.
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